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Ocasionalismo no Aristotelismo Medieval
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Esta página divulga o projeto "Ocasionalismo no Aristotelismo Medieval", financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa da Bahia e coordenado por Márcio Custódio, Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal da Bahia. O projeto teve início em 2007 e se encerra em 2009.
Qualquer contato para troca de informações com outros pesquisadores será bem acolhida! Objetivo Pretende-se investigar o ocasionalismo nas tradições islâmica e latina da Filosofia Medieval aristotélica, bem como nas filosofias que inauguram o mecanicismo no início da Filosofia Moderna. O objetivo primeiro da pesquisa é entender o surgimento do tema, seja nas discussões anti-pelagianas que surgem em Agostinho e ressurgem em Oxford, no século XIV, envolvendo as noções de graça, natureza, predestinação e liberdade da criação, seja que surgem do contato entre as filosofias islâmica e latina sobre fatalismo e resignação a Deus; em ambos os casos o que está em questão é a possibilidade de qualquer empreendimento personalíssimo. O objetivo segundo da pesquisa é entender como essa discussão reaparece no século XVI, como uma denúncia dos limites do mecanicismo cartesiano. Características das Tradições Ocasionalistas O termo “ocasionalismo” designa uma multiplicitade de sistemas teóricos que tem em comum a crença na causa efetiva de Deus, cuja intervenção direta nos eventos ou ocorrências da natureza chama-se “manifestação” ou “ocasião.” O tema do ocasionalismo, em seu tratamento filosófico, ultrapassou as fronteiras da Filosofia Medieval. Poder-se-ia mesmo afirmar, como o faz Fakhry, que é de Malebranche a mais sistemática definição dada ao termo. Em Malebranche, o tema do ocasionalismo surge da crítica lançada à distinção entre ato e potência do aristotelismo. Ter a potência de empreender uma ação é, para o autor, algo de divino, pois admitir que há algum outro agente ou causa na natureza, portanto além de Deus, em sua criação, é similar a admissão de que há outro agente criador que não Deus, que pode agir nas almas e nos corpos; é também admitir que há, acima de nós, algo outro que não Deus; e, uma vez que está acima de nós, é merecedor de nossa temeridade e de nosso amor. Porém, só se deve amar e temer a Deus, como diz Agostinho, fonte de Malebranche. O texto de Malebranche nos ajuda a compreender que o ocasionalismo só se faz presente em filosofias que empreendem uma descrição e uma investigação das causas naturais, ou seja, apontam para a necessidade de se redefinir o conceito de causa ou para a adoção de uma postura cética. Quatro séculos antes de Malebranche, Guilherme de Ockham (m. 1349) empreendeu uma crítica veemente ao coneito de causalidade ao argumentar que o conhecimento está confinado ao singular adquirido diretamente ou pela experiência ou pela intuição. Assim, o conceito (intentio anime) deve ser compreendido como sendo um mero símbolo daquilo que significa; e aquilo que significa não tem exitência fora da alma, nem em outro objeto, nem separado, como um ente. O universal, por seu turno, nada mais é que a soma total dos singulares assim adquiridos, não possuindo nenhuma garantia, seja da alma seja da experiência: a alma só justifica inferências tautológicas e a experiência é incapaz de justificar, uma vez que não há correspondência entre o conceito e seu objeto. A causalidade, nessa concepção, deixa de ter um primado sobre as outras categorias com as quais se concebe a natureza para ser, ela mesma, um símbolo de uma certa seqüência de eventos isolados que, no âmbito da experiência ocorrem como uma mudança ou sucessão; isto porque não há nenhuma correlação necessária entre tal mudança ou sucessão e seus conceitos. Muito embora tenha ocorrido no século XIV, esta crítica de Ockham ao ocasionalismo é mais contundente que a efetuada por Malebranche. Para Ockham, não bastava negar a justificação do conhecimento da causa na natureza, mas era preciso admitir a impossibilidade para qualquer causa, o que incluía a afirmação de que o mundo é efeito da causa necessária de Deus. Isto porque se se admite que Deus é a causa primeira do Mundo, então ter-se-á que admitir também que há causalidade em agentes secundários, na natureza. Uma vez que se argumentou suficientemente contra os agentes secundários, pode-se também estender a argumentação contra a causalidade de Deus. Neste ponto, Ockham alcança o ponto nevrálgico da argumentação ocasionalista, seja ela islâmica ou cristã: a demonstração da existência de Deus como causa primeira. Não se trata de negar a existência de Deus; esta é indemonstrável e aceita pela autoridade da fé. Trata-se de negar que a noção teológica, islâmica ou cristã de Deus, coincide com a noção de causa primeira do universo aristotélico medieval. Como Ockham, muitos autores, conhecidos como nominalistas de Paris, do século XIV, trataram com o ocasionalismo, tratamento este que se deu não no âmbito da lógica, como em Ockham, mas da investigação da natureza. Este é o caso de Nicolau de Autrécourt (m. depois de 1350), que embora aceite por fé a existência de Deus, no âmbito da Filosofia da Natureza afirmava ser impossível o conhecimento das causas. Para o autor, pode-se aceitar como certos os dados obtidos pelos sentidos, nossos próprios atos e os princípios de identidade e de contradição; nós os conhecemos por intuição direta. Deve-se acrescentar o que conhecemos analiticamente: as conseqüencias evidentes, ou seja, aquelas em que o conseqüente é identico ao antecedente ou em que o conseqüente é em parte denotado pelo antecedente. Entretanto, quando se passa para o domínio da síntese, para Autrecourt há uma impossibilidade de conhecimento. Nenhuma inferência obtida por síntese pode ser justificada, nem mesmo as inferências da percepção, ou seja, aquelas em que o antecedente é obtido pela percepção. Assim, por exemplo, a percepção de um acidente (“vermelho”) não justifica a existência da conseqüente substância na qual ocorre o acidente (o substrato ou suporte do vermelho), uma vez que o conceito do acidente sem a substância não envolve nenhuma contradição. Uma vez que para Autrecourt a própria causalidade é uma relação sintética, não pode haver nenhuma justificação para qualquer relação de causalidade. Assim, toda existência deve ter Deus como causa; mas apenas como dever de fé, não como objeto de investigação do filósofo da natureza. O contato entre o ocasionalismo e a investigação da natureza não está restrito a Nicolau de Autrecourt, nem se esgota na discussão sobre a existência de Deus como causa primeira, mas toca na noção de onipotência divina e, por extensão, nas noções que positiva ou negativamente ordenam o mundo para o aristotelismo, a saber, infinito, vazio, tempo, lugar e movimento. Como Afirma Murdoch: "O elemento teológico mais influente era precisamente o conceito de onipotência de Deus. Escritores começaram a basear suas análises do infinito e do contínuo em tudo o que se podia argumentar com base no poder absoluto de Deus. E uma vez que o poder absoluto de Deus estendia-se a tudo o que não incluía contradição, invocar seu poder para examinar o infinito ou a continuidade era o mesmo que transferir uma análise do âmbito do fisicamente possível (segundo os limites da filosofia natural de Aristóteles) ao mais alargado âmbito do logicamente possível." Este é o caso, além dos nominalistas de Paris, dos chamados calculadores de Oxford, dentre os quais se encontra Thomas Bradwardine (1290-1349), autor que toca no problema do ocasionalismo ao tratar do continuo, em obra homônima, ao atacar as teses neo-pelagianas de sua época e tratar dos futuros contingentes em obras como o De causa Dei (1343). Antes do século XIV, entretanto, o ocasionalismo encontra terreno fértil não na Filosofia da Natureza, mas na Metafísica. Assim, na medida em que o termo se define pela crença na eficácia exclusiva de Deus, pela qual os eventos que se julga serem naturais não são senão a clara manifestação de sua intervenção direta, pode-se sustentar que os ocasionalistas enfatizam as noções de onipotência e soberania de Deus com o intuito de afirmar a completa dependência que a criação tem de seu criador. Essa discussão esteve presente no contato entre a Filosofia Islâmica de Averróis e a Filosofia Latina de Tomás de Aquino e no contato que ambos tiveram com o filósofo judeu Maimônides. Pesquisadores Participantes Márcio A. Damin Custódio (UFBA) Tadeu Mazzola Verza (UFBA) Sueli Sampaio Damin Custódio (UNIME-UFBA) Alunos Participantes José Edelberto Araújo de Oliveira (Mestrado em Filosofia - UFBA) José Portugal dos Santos Ramos (Mestrado - UFBA) Giorlando Madureira Lima (Bolsa Fapesb de Iniciação Científica 2007-2008) | ||
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